| Imprensa - Notícias
Brasil dá lições ao mundo na crise
Rodrigo de Almeida
Habitualmente bem-humorado, o empresário Antoninho Marmo Trevisan tem estado especialmente festivo neste inverno. Credite-se a dois êxitos gloriosos – um seu, em particular, e outro do país.
Primeiro, comemora 10 anos de fundação da Trevisan Escola de Negócios, concebida para formar profissionais dedicados ao ambiente corporativo, iniciativa surgida depois que o grupo conquistou uma sólida credibilidade nas áreas de auditoria e consultoria empresarial. (Hoje está no topo dos rankings do MEC). O segundo motivo de alegria resulta do desempenho da economia brasileira em tempos de crise internacional.
Para ele, o Brasil tem dado lições ao mundo de como enfrentar a turbulência.
As duas coisas unem-se por um fio comum, como mostra Trevisan nesta entrevista. “A crise mostrou que há uma necessidade muito grande de construirmos padrões de ensino que sejam ligados a cada país”, sugere o empresário-educador.
Na conversa, o empresário põe o dedo na ferida do modelo de educação que costuma distanciar o aluno da realidade, maneira ultrapassada e contraproducente de preparar as novas gerações para o desenvolvimento.
Também analisa duas formas de lição – sobre a crise e sobre a formação dos novos profissionais.
Nos dois casos, sublinha, a velocidade das mudanças e a complexidade das soluções adornam o imperativo da competitividade.
Dez anos da Escola de Negócios Trevisan. Qual o balanço? – É um balanço de felicidade. É a satisfação de ter criado uma instituição que ficará por mais 10, 20, 100 anos. Esses 10 anos mostraram a importância da educação, sobretudo essa educação na qual estamos envolvidos.
Segundo, essa crise econômica mostrou que há uma necessidade grande de construirmos padrões de ensino que sejam ligados a cada realidade, a cada país.
Para uma crise, efeitos e soluções diferentes...
– Exatamente. O Brasil tem características próprias e está saindo da crise com instrumentos muito particulares, fazendo distribuição de renda forçada e gerando pressão para novos investimentos. O terceiro ponto é que a capacitação das pessoas tornou-se uma necessidade quase continuada. Com a crescente necessidade de convergência do mundo tributário, financeiro, administrativo e contábil, não há mais como abandonar os bancos escolares. Nesse aspecto, nossa escola ficou bem posicionada.
O quarto é último ponto a comemorar é a satisfação de ser referência entre os auditores. Uma parte significativa de nossos alunos é encaminhada pelas próprias empresas de auditoria. Ser escolhido por um concorrente confirma que temos feito um bom trabalho.
O que mudou no perfil do ensino numa escola de negócios? – O dinamismo da economia ganhou uma velocidade tal que só mesmo uma escola ligada ao mundo empresarial consegue traduzir e implementar seu programa com a mesma velocidade com que as mudanças ocorrem. As melhores escolas de negócios do mundo, inclusive a de Harvard, estão revendo suas posições.
Antes, viam um livro ser lançado e depois de alguns anos de análise o incorporavam na grade curricular. O dinamismo da economia se acelerou de tal maneira que não há mais como fazer isso. Quando criamos a escola, há 10 anos, pensamos numa escola sem lápis e sem papel. O aluno fica antenado ao seu laptop. Isso há 10 anos... A maneira como é preciso hoje ensinar executivos e jovens estudantes tem de ser a prática vivenciada pelas empresas. A performance das empresas está ditando o que ensinamos. As empresas serão cada vez mais escolas, e as escolas serão cada vez mais empresas.
Essa é uma convicção que temos desde o primeiro dia.
Há uma análise corrente segundo a qual há um distanciamento entre empresas e escolas.
– É verdade. A academia produz ciência, o mundo empresarial cria produtos e serviços. Ocorre que ambos não se falam. A Trevisan Escola de Negócios conseguiu trazer esses dois lados. Não é por outra razão que você cruza com empresários o tempo todo na escola.
O senhor falou das mudanças nas empresas e nas escolas. E o perfil do profissional, o que mudou nesses 10 anos? – Primeiro, precisa estar aberto ao conhecimento. O segundo atributo é uma profunda habilidade para administrar o conhecimento. A informação, não o conhecimento, está vastamente disponível. O profissional tem de aprender a administrar essa informação e transformá-la em conhecimento, seja no curso de administração, ciências contábeis, marketing e relações internacionais. A sala de aula já é um laboratório de informática, o aluno já está ligado a esse ambiente e a cada semestre é desafiado a apresentar no seu grupo um trabalho, de maneira que ele tem oito semestres e oito teses para apresentar.
Com isso, sai preparado para, no ambiente de trabalho, compartilhar ideias, defender posições, transmitir conhecimento e liderar. O fato de termos sido criados no mundo eletrônico acelerado nos dá grande vantagem. Para nós é natural o que as outras escolas estão tentando incorporar.
O mundo corporativo é o mundo em que trabalhamos.
Mas o atraso das escolas resumese ao Brasil? – Não. Essa discussão ocorre no mundo inteiro. Harvard chegou à conclusão de que o conhecimento que transmitia era pouco útil para as empresas. É comum o mundo acadêmico negar a existência do mundo corporativo.
A educação é costumeiramente tratada como essencial para o desenvolvimento de qualquer país. No Brasil, as práticas correspondem aos discursos? – Lamentavelmente nos ocupamos, sobretudo no ensino fundamental, a gastar o tempo a ensinar quais são os afluentes do Rio Amazonas e não explicamos o que é uma carteira de identidade e como exercer a cidadania.
Educamos crianças e jovens a viver num mundo que não existe.
As pessoas não sabem o que é um imposto. O Brasil se afasta da realidade.
Parece complexo de um país colonizado, que prefere estudar a França e não tratar de indicar o valor do voto. Fugimos do mundo real.
Um dentista, um engenheiro ou um médico não têm a menor ideia do que farão quando chegarem lá fora.
Engenheiro não é um ser abstrato.
Ou trabalha numa empresa ou abre uma. Mas as escolas não o ajudam a entender o país onde ele está.
Isso passa também por uma política pública para a educação.
Na sua avaliação, houve avanço entre o governo Fernando Henrique e o governo Lula? – SóofatodetermoscriadooProuni já garantiu à educação brasileira um momento glorioso. O Prouni, criado no governo do presidente Lula, permitiu a jovens que jamais teriam acesso a escolas de primeiro nível pudessem frequentar uma universidade privada de altíssimo gabarito.
Isso é como retomar um padrão que ocorreu no passado. Estudei em escola pública e me habituei a ter colegas de diferentes padrões. De 30 anos para cá isso se alterou. A educação colocou cada um num nicho diferente. O Prouni resgata aquela possibilidade perdida.
Nos últimos 10 anos houve uma profissionalização e internacional crescente entre as grandes empresas. O que houve de mudanças relevantes? – Mudou, entre as empresas, a percepção da competitividade. O ambiente de negócios nos últimos 10 anos se alterou na exata medida em que foram se abrindo os portos a todas as nações. E você se viu diante de um competidor chinês, americano, coreano, indiano, e tendo que compreender diferentes culturas e não tendo uma alternativa para competir senão com a melhoria de sua produtividade. As empresas brasileiras, em que pese não ter atingido ainda a melhor posição, deu um grande salto nessa melhoria de produtividade.
Fez isso para sobreviver, caso contrário teria desaparecido.
E as empresas menores? Qual o espaço destinado a elas? – Elas descobriram as chamadas redes.
Há hoje redes de atuação que vão desde a empresa que fabrica alfinete, a drogarias, a pequenas boutiques.
Você consegue se inserir numa rede mundial com enorme facilidade.
Basta acessar a internet. Sou apaixonado por essas redes. Dirijo uma ONG na qual trabalham quatro pessoas. E estamos em todo o Brasil via redes de merenda escola. A BDO, que se juntou à Trevisan, é uma rede internacional de auditores.
Uma empresa brasileira de auditoria estaria fadada a ficar isolada. A partir daí eu atendo no Brasil, na China, na Rússia, onde eu quiser. As empresas menores têm hoje essa enorme pos/p>
sibilidade de se incorporar a essas redes. É como o papel do educador: gerar informação e ajudar o aluno a interrelacionar-se com o resto do mundo. Com isso o Brasil teve enorme avanço. A atual crise econômica é um bom exemplo disso. Estamos sendo chamados a ensinar.
Como assim? – Fui recentemente a Bruxelas com outros integrantes do Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social CDES, órgão consultivo da Presidência da República) debater com o conselho de desenvolvimento econômico europeu. Éramos oito ou nove integrantes do Conselhão. E passamos dois dias explicando aos europeus como fizemos as melhores práticas para termos esse resultado diante da crise.
Há 10 anos íamos pedir ajuda.
– Sim, e nos acusavam de sermos indisciplinados, bagunceiros, descumpridores de contratos. Nesses 10 anos houve uma enorme preocupação em disciplinar a coisa pública.
A lei de responsabilidade fiscal é um marco. Depois, o governo Lula reforçou esse marco regulatório e inseriu uma coisa nova, uma rede social profunda, que derrubou o paradigma de que é preciso primeiro concentrar para depois distribuir. Fez diferente. Gerou demanda e pressionou por investimentos, sem que houvesse inflação, que era a grande ameaça. Portanto, os investimentos estão acontecendo em função dessa demanda. Os países estão interessados em conhecer esse modelo.
Na resposta à crise, o que nos garantiu a saúde? – Primeiro,umambiente financeiro muito bem posicionado. Segundo, o endividamento das famílias brasileiras estava extremamente baixo se comparado a outros países. O Brasil também não tinha desenvolvido a prática dos derivativos. Isso dentro de um ambiente com a redução dos juros, toda a ação para não faltar o crédito, não deixar que o câmbio se perdesse e não permitir o desemprego em massa. A soma disso tudo foi a responsável para que essa retomada se desse rapidamente.
O empresariado brasileiro está mais otimista? Ele se assustou em demasia em setembro e outubro do ano passado...
– Sim, nossos empresários estão muito muito mais otimistas. Percebo pelas consultorias, pelos projetos retomados com muito vigor, pelo sistema financeiro preocupado em acelerar a oferta de crédito.
Vamos ter uma retomada agora dos IPOs. Isso tudo vai resultar num novo ânimo para a economia.
E 2010? Será a primeira eleição sem Lula desde a redemocratização.
O senhor sempre votou nele. O que muda agora? – Nada (risos). Essa é a grande vantagem.
Nossa democracia adquiriu determinados valores que não permitirão que governantes aventureiros façam o que quiserem. O futuro presidente terá um aparato social, um ambiente econômico, um marco regulatório definido em praticamente todos os setores – exceção aos aeroportos e portos. Temos um Judiciário funcionando.
Temos um Legislativo amadurecendo, apesar dos escândalos, que fazem parte do jogo democrático.
Portanto, não acredito que teremos mudanças muito acentuadas.
Leia a íntegra da entrevista no JB Online (www.jb.com.br) crianças e jovens brasileiros a viver num mundo que não existe.
As escolas fogem do mundo real Nossa democracia adquiriu valores que não permitirão que governantes aventureiros façam o que quiserem
Educamos
Perfil Antoninho Marmo Tr evisan Paulista de Ribeirão Bonito, integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
Iniciou a carreira aos 20 anos na Price Water house.
Foi professor da Fundação Getulio Vargas até fundar a Trevisan & Associados, em 1983.
VOLTAR |