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Reforma tributária: eleições dificultam
aprovação em 2008
Estadão - 11/05/2008
CAROLINA RUHMAN E ANNE WARTH - Agencia Estado
SÃO PAULO - As perspectivas de aprovação
da reforma tributária neste ano são muito pequenas,
embora analistas e consultores reconheçam que o momento
atual, em que a economia brasileira cresce e a arrecadação
bate recordes, é "raro" e muito favorável
para a aprovação. "Ou avançamos
até junho, ou então não acontece",
declara Germano Rigotto, ex-governador do Rio Grande do Sul
e coordenador do grupo de reforma tributária do Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. A descrença ocorre
em função do ano eleitoral, que encurta o tempo
hábil de discussão e aprovação
da proposta. "As chances estão no lado de que
a reforma não seja aprovada neste mandato", reconhece
o diretor do Eurasia Group em Nova York, Christopher Garman.
Ainda que o governo deseje aprovar a reforma
no primeiro semestre, Garman destaca que o calendário
político dificulta ainda mais a obtenção
de um consenso em torno no projeto na Câmara e no Senado
neste ano. "É difícil que isso ocorra",
avalia. O consultor de risco político acredita que,
se aprovada, a reforma deve passar na Câmara no final
deste ano e ser discutida no Senado somente em 2009.
Rigotto chama a atenção para o
compromisso do presidente da Comissão Especial da Reforma
Tributária na Câmara, o deputado federal Antonio
Palocci (PT-SP), de aprovar o projeto neste semestre e de
não estender os prazos. O ex-governador do Rio Grande
do Sul se mostra "muito preocupado" com as chances
de que a tramitação avance. "O projeto
deveria ter chegado ao Congresso no ano passado, mas as discussões
sobre a CPMF atrapalharam", cita Rigotto. Da mesma maneira,
Garman enfatizou a dificuldade na aprovação
devido aos entraves na capacidade de negociação.
"A negociação é muito difícil",
afirma.
Garman critica a escolha de Sandro Mabel (PR-GO)
para a relatoria da Comissão. Para Garman, com o deputado,
que é empresário e um dos donos do Grupo Mabel,
pode haver interferência de seus interesses pessoais
ao longo do processo de discussão da reforma. "Ele
não é tão desinteressado", afirma,
acrescentando que o deputado tem "menos capital político
e menor capacidade técnica" do que Palocci, que
era cotado para relator. A escolha da relatoria foi, na visão
de Garman, "um revés importante". Ele reconhece
que a permanência de Palocci na comissão como
presidente pode contribuir para o processo, "mas não
é a mesma coisa". "Fiquei mais incerto após
a escolha da relatoria", revela.
Economia forte - Entretanto, o momento é
"ímpar" para a aprovação da
reforma, dado o fortalecimento da economia do País
e a arrecadação recorde, aponta Antoninho Marmo
Trevisan, membro do grupo de reforma tributária CDES.
"A economia está extremamente alavancada",
destaca, acrescentando que, com a arrecadação
elevada, "o risco de o governo perder com a reforma é
zero".
Além disso, ele chama a atenção
para o fato de que "o Brasil não é uma
ilha". Em sua visão, os modelos tributários
tendem a ser compartilhados por diversos países e,
portanto, comparados e avaliados por agentes econômicos
no momento da escolha sobre onde aplicar o dinheiro. Um modelo
simplificado de tributação, na avaliação
dele, seria o mais interessante. "Não vamos ser
iguais à jabuticaba, que só dá aqui no
Brasil", brinca Trevisan. "Temos condições
inéditas para a aprovação", concorda
Garman.
Segundo Garman, o menor rigor fiscal dá
maior mobilidade ao governo e o contexto de crescimento econômico
"robusto" também contribui. Ele cita ainda
a nota fiscal eletrônica, que "facilita muito",
no sentido de dificultar a evasão fiscal e ajudar na
elaboração de regras compensatórias,
já que ela dá estimativas mais rigorosas de
quanto cada Estado ganha ou perde com uma reestruturação
dos tributos. "É uma mudança radical das
perspectivas", declara.
2009 - O cientista político Fernando
Abrucio avalia que há uma "janela de oportunidade
muito forte" em 2009 para a aprovação da
reforma, já que o próximo ano não conta
com calendário eleitoral e dado que as discussões
já começaram formalmente neste ano. Segundo
ele, poderá haver um esforço conjunto para mudar
as regras tributárias no ano que vem, já que
muitos governadores e parlamentares estarão de olho
em um novo mandato já com uma tributação
diferente. "Nós vamos ver em 2009 o quanto essa
reforma é desejada", previu.
Essa possibilidade não passa, entretanto,
na cabeça do presidente da Comissão na Câmara,
Antonio Palocci, um dos poucos a acreditar na aprovação
da proposta ainda neste ano. "Provavelmente não
haverá chance melhor de aprovar a reforma tributária",
aponta, citando que esta é a terceira tentativa na
última década. "Se falhar, uma nova tentativa
terá credibilidade próxima a zero", ressalta.
Ele também atenta para o "comportamento
favorável da arrecadação de todos os
entes da federação", o que gera espaço
para uma reforma. "Isso porque o ciclo de crescimento
atual está sendo acompanhado por um processo forte
de formalização de empresas e pela combinação
de quatro fatores: ampliação do mercado de capitais,
ampliação do crédito, aumento das exportações
e melhoria da fiscalização", explica Palocci.
Em sua visão, estes fatores estimulam a formalização
das empresas e dos empregos. "Além disso, o crescimento
econômico tem aumentado os lucros de maneira expressiva",
acrescenta, classificando este ambiente como "mais favorável"
a uma reforma tributária.
Para Antoninho Trevisan, o projeto que
está sendo discutido no Congresso é "produto
de um consenso". Ele tece elogios à atuação
do secretário de Política Econômica do
Ministério da Fazenda, Bernard Appy, que, segundo ele,
"costurou" a reforma tributária, em um ano
e meio, com todos os setores da economia. "Não
me lembro de que outra reforma tivesse sido tão costurada
quanto essa", avalia. Já Germano Rigotto discorda
desta visão. Para ele, mais do que consenso, é
preciso haver uma "decisão muito forte do Congresso
e do Executivo" e uma "mobilização
total do governo", inclusive com a participação
e envolvimento do presidente Lula, que considera vital. "O
governo tem que fazer com que a base priorize e que o processo
avance", defende. "Não é fácil
a aprovação, envolve uma decisão política
efetiva", reconhece.
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