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A hora chegou
Executivos Financeiros - 01/05/2008
Com a aprovação, pelo Senado, da Lei
11.638 e de sua normatização, que já
está em período de audiência pública
, empresas listadas e de grande porte terão de apressar-se.
Elas têm até o final de 2010 para adequar-se
ao IFRS
A aprovação, pelo Senado, da Lei Lei 11.638,
trará uma série de vantagens às companhias
do País com objetivo de atuação global.
A mais visível delas será a possibilidade real
de captar recursos no mercado externo com mais facilidade.
Como as empresas brasileiras passarão a produzir seus
balanços consolidados tendo como base o modelo IFRS
(International Financial Reporting Standards) , replicado
em mais de 100 países, a expectativa é que haja
menos burocracia para conseguir fundos e assinar contratos.
Um bom exemplo de como a adaptação pode ser
benéfica para empresas brasileiras com planos fora
do país será a listar-se no mercado acionário
norte-americano. Isso ficará mais simples com a adoção
do IFRS. Afinal, desde o ano passado , a SEC (Securities and
Exchange Comission), órgão que regula o mercado
de capitais nos Estados Unidos, desobrigou as empresas interessadas
em negociar seus papéis nas bolsas locais de adotarem
o sistema norte-americano de contabilidade, conhecido com
US GAAP. Ou seja, a contabilidade das companhias brasileiras
utilizada localmente poderá também ser comparada,
em igualdade de condições, nos mercados mais
importantes do mundo. "O que nós entendemos hoje
como comparabilidade de informação é
considerado essencial ao funcionamento do mercado. É
a permissão para que o investidor tome decisões
com base em informações que sejam comparáveis",
afirma Wagner de Aquino, da superintendência de normas
contábeis e auditoria da CVM (Comissão de Valores
Mobiliários).
Como contrapartida, a implementação das normas,
cujo objetivo principal é o alinhamento da contabilidade
brasileira às práticas internacionalmente reconhecidas,
traz uma série de desafios. O maior deles, diagnosticado
por aquelas empresas que iniciaram o processo de adesão
às regras, será de pessoal. Por um lado, trará
à tona o nível de comprometimento da alta administração
das companhias e, adicionalmente, a capacidade de envolver
de envolver e congregar diferentes departamentos. O motivo
dessa integração é simples: olFRS não
se baseia em regras escritas, mas em princípios. "Não
tenho dúvidas de que, no processo de alinhamento contábil,
as empresas terão a percepção exata disso",
projeta Nelson Carvalho, presidente do Conselho Consultivo
de Normas do IASB (International Accounting Satandards Board),
órgão que estabelece e publica as diretrizes
contábeis mundiais. "O IFRS trará muitas
mudanças nos perfis profissionais de contadores e advogados.
O próprio ensino dessas matérias sofrerá
mudanças no que diz respeito às normas",
explica Carvalho.
As principais empresas de auditoria e consultoria com atuação
do Brasil compartilham dessa avaliação. Cientes
de que a adaptação trará oportunidades
e aumentará o volume de seu trabalho, elas começam
a acelerar o ritmo de ações para dar conta do
cumprimento da lei.
E não há muito tempo para fazê-lo. De
acordo com o documento aprovado, companhias brasileiras com
ações negociadas na Bovespa e empresas de grande
porte terão até o final de Z010 para produzir
balanços consolidados adaptados ao IFRS. São
consideradas de grande porte, para efeito de enquadramento
na lei, companhias cujos ativos totais sejam superiores a
R$ 240 milhões ou aquelas cuja receita bruta anual
ultrapasse R$ 300 milhões. Estão incluídas
nesse escopo diversas modalidades de sociedades. "O espírito
do legislador foi o de ampliar a possibilidade dessas organizações
terem comparativo contábil global. Isso traz mais transparência
e deixa clara a expectativa de um grande número de
empresas que podem abrir seu capital", exemplifica o
presidente da BDO Trevisan, Antoninho Marmo Trevisan. Desde
o início deste ano, a empresa tem preparado diversos
cursos, seminários e palestras sobre o tema, cujo público-alvo
varia de leigos a profissionais das áreas de finanças
e relações com investidores de empresas com
papéis na bolsa. A equipe de auditoria da BDO ganhará
reforços para implantar o IFRS. A partir de junho,
a auditoria passará a contar com o alemão Joachim
Vaih, especialista no tema.
A Ernst &Young, uma das maiores empresas do mundo em auditoria,
também tomou o mesmo rumo. Tem envolvido sua equipe
em palestras sobre o tema e lançou recentemente dois
tipos de cursos cujos módulos tratarão de forma
específica diferentes aspectos da lei. 11.638 e a transição
ao IFRS. O curso completo custará R$ 4 mil. Cada módulo,
que poderá ser feito individualmente, sairá
por R$ 675. As aulas serão ministradas na universidade
corporativa da Ernst.
Primeira turma
Os mais adiantados em busca de adequar-se à nova padronização
contábil no Brasil são os bancos e as empresas
de capital aberto. Os primeiros, regulados pelo BC (Banco
Central), já vinham sendo comunicados de que teriam
de adaptar-se até 2010. Como muitas dessas instituições
financeiras têm suas matrizes na Europa, continente
onde surgiu o IFRS, não houve muita dificuldade. O
HSBC, por exemplo, cuja sede fica em Londres, já reporta
demonstrativos contábeis à matriz desde meados
de 2005. Com a aprovação da 11.638, precisará
a passar a publicar esses balanços também no
Brasil.
Seguindo os passos do BC, a CVM, divulgou, em meados de julho
do ano passado, a Instrução 457, cujo conteúdo
alertava para a necessidade de migrar para o IFRS. Com a.aprovação
do texto da 11.638, companhias com ações na
bolsa - que já estavam atentas a seu teor -passaram
a adiantar-se. A primeira a executar a conversão por
completo foi a Gerdau. Foi a única brasileira até
então.
Outras, entretanto, começam a acelerar movimentos para
a conversão. No mês passado, a Sul América,
uma das maiores companhias de seguros com atuação
no País, anunciou planos nessa direção.
A empresa, cujo IPO (Oferta Pública Inicial de Ações,
na sigla em inglês) ocorreu no ano passado, contratou
um novo diretor-financeiro. Sérgio Borriello, que cuidava
da área de controles de subsidiárias do grupo,
foi trazido para comandar a equipe que providenciará
as alterações contábeis necessárias.
Como a legislação especifica que as empresas
precisam preparar os demonstrativos contábeis consolidados
até o fim de 2010, com um exercício para servir
de comparativo, a transição à lei terá
de ser acelerada. Preparar-se neste ano significará,
portanto, ter o tempo necessário para elaborar os balanços
do próximo ano e poder comunicar a seus acionistas
e ao mercado, eventuais distorções surgidas
na processo. Essas companhias mais adiantadas terão
a possibilidade de publicar o documento voluntariamente já
em 2009. Não devem ser poucas as que o farão
como boa prática de governança corporativa e
transparência.
O texto original da 11.638 previa que as empresas de grande
porte também teriam de publicar seus balanços,
como acontece com as de capital aberto. O dispositivo, no
entanto, caiu na última hora. "O que certamente
acontecerá é uma espécie de seleção
natural: quem publicar o balanço voluntariamente será
melhor avaliado na eventual elaboração de um
cadastro positivo que os bancos farão par emprestar
dinheiro a seus clientes", afirma o diretor de auditoria
da BDO Trevisan, Henrique Campos.
Como leva em consideração ativos e receita bruta
no exercício, a lei contempla também entidades
sem fins lucrativos, como as instituições religiosas.
Para harmonizar diversos pontos da lei, a CVM e o CPC (Comitê
de Pronunciamentos Contábeis), divulgarão durante
este ano, diversas minutas.
Os documentos, cujo conteúdo ficará à
disposição para períodos de discussão
e audiência públicas, terão essa finalidade.
O objetivo é que as normas sejam normalizadas, levando
em consideração particularidades locais. Entretanto,
a idéia dos órgão é que o documento
final aprovado tenha um texto bastante parecido com o doeu-'
mento do IASB. O objetivo é adotar o IFRS "puro".
Até o momento foram divulgados quatro pronunciamentos.
Um deles trata das demonstrações de fluxo de
caixa das empresas. A última minuta colocada em período
de audiência pública foi o que relacionará
o tratamento que terão os ativos intangíveis
nos balanços das empresas. O mesmo deverá ocorrer
também com um documento sobre novas normas para a modalidade
arrendamento mercantil, conhecida como leasing.
Adequação de sistemas
Um dos pontos mais sensíveis que envolverá a
transição e implantação definitiva
do IFRS nas empresas brasileiras deve ser a adaptação
dos sistemas e ferramentas tecnológicas. Embora não
divulguem orçamentos ou perspectivas de volume de custos,
especialistas proje-tam que Tl consumirá por boa parte
do volume de recursos destinados pelas empresas.
E, por isso, não deverão faltar fornecedores
atentos à nova demanda por negócios surgidos
pela adoção do IFRS no Brasil. Uma das empresas
que demonstra interesse por desenvolver serviços para
suprir essa necessidade é a Sonda Procwork, resultado
da fusão entre uma brasileira e uma chilena. "Estamos
estudando oferecer um produto que supra as necessidades que
a conversão trará às empresas. A maior
delas é a alteração da sistemática
do plano de contas que integram os sistemas", exemplifica
um dos diretores da empresa, Carlos Kazuo Tomomitsu.
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