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Empresas aceleram implantação
do IFRS
Gazeta Mercantil - 05/05/2008
As empresas brasileiras começam
a acelerar sua transição entre o atual modelo
contábil e o IFRS (International Financial Reporting
Standards), norma adotada em mais de 100 países e da
qual o País terá de aproximar-se com a aprovação,
em dezembro pelo Senado, da Lei 11.638.
Algumas companhias, entretanto, foram além: providenciaram
a adaptação completa do modelo. Como o IFRS
ainda não está regulado no País, essas
empresas optaram por adotar o texto literal do IASB (International
Accounting Standard Boards), órgão que publica
e atualiza os princípios contábeis globais.
Foi o caso da Gerdau e , mais recentemente, da Romi , que
produz máquinas e equipamentos, e optou por adiantar-se
no processo de convergência às novas regras.
Os dois principais impactos gerados em seu balanço
ocorreram no patrimônio líquido e na reserva
de avaliação da companhia. No primeiro caso,
os resultados da Romi foram alterados de forma positiva. Isso
aconteceu devido ao IPO (Oferta Pública Inicial de
ações, na sigla em inglês), realizado
em abril do ano passado, e por meio do qual foram captados
mais de R$ 480 milhões. Com a adoção
do IFRS, o patrimônio líquido foi acrescido em
R$ 12,9 milhões. "Nossa opção foi
preparar todo o conteúdo na norma internacional, incluindo
o detalhamento das notas explicativas. O balanço tem
quase 70 páginas e é um instrumento importante,
principalmente para que investidores estrangeiros tenham parâmetros
mais adequados dos números das empresas", afirma
o gerente de relações com investidores da Romi,
Luiz Cassiano Rosolen.
Como esses investidores adquirem cerca de 75% dos IPOs do
País, a possibilidade de comparar com uma mesma métrica
os balanços deverá ser benéfica. Ela
tornará possível mostrar as diferenças
das empresas.
Alguns setores com histórico recente na bolsa, por
exemplo, querem aproveitar a migração contábil
para melhorar o desempenho de suas ações no
pregão. Empresas ligadas aos segmentos de construção
civil estão enquadradas nesse caso. Com mais de 20
papéis negociados na Bovespa, a avaliação
é a de que o setor é analisado como um todo
e não levando em conta as particularidades de cada
companhia. "Como o IFRS nivela os balanços, as
empresas passarão a ser consideradas por sua estratégia
e desempenho individuais, o que pode alterar o valor das ações",
exemplifica o diretor-financeiro da Klabin Se-gall Emane Abrahão.
À companhia não projeta muitos impactos quando
tiver completado o processo de implementação
do IFRS. A Klabin Segall já tem alguns critérios
em fase adiantada de adequação. "Reconhecemos
o financiamento à produção como custo
do empreendimento, enquanto a maioria ainda o qualifica como
despesa financeira dentro de seus balanços", afirma
Abrahão.
Segundo o executivo, porém, as companhias do ramo de
construção civil preocupam-se com pelo menos
um dos aspectos da lei. "O IFRS diz que as receitas só
podem ser reconhecidas após a entrega das chaves do
imóvel. Isso fará com que haja um buraco nas
receitas. Esse descasamento de contas acontecerá porque
estamos habituados a reconhecer receitas de acordo com a curva
de custos e entradas de recursos nas obras", afirma.
Atualmente, as companhias do setor reconhecem sua receita
à medida que ocorrem as vendas de unidades.
Outra empresa do setor imobiliário que está
acelerando sua adequação à nova lei é
a Lopes. "A fase de diagnóstico, em que estamos,
dura de seis a oito meses. Logo depois, virá o estágio
de capa-citação, que envolverá um trabalho
integrado dos departamentos de controladoria, financeiro e
de RI (relações com investidores)", detalha
o coordenador de RI da empresa, Diego Barreto.
A Lopes estabeleceu um cronograma para implantar o IFRS, cujo
próximo passo será fornecer ao mercado e a investidores
o maior número possível de informações
sobre o processo. Esse comunicado deve conter os principais
efeitos que o novo modelo trará às suas contas.
Para o HSBC , o ajuste às normas contábeis não
deve causar grandes dificuldades. Afinal, desde 2005, a operação
brasileira do banco já reporta dados adaptados à
sua matriz, em Londres. Bastará, para completar a transição,
publicar os balanços brasileiros seguindo a nova sistemática.
"Nós adorávamos o modelo britânico,
bastante próximo do IFRS, e que tornou menos doloroso
nosso ajuste fino", diz o diretor-executivo de finanças
do banco, Álvaro Azevedo. No início de 2005,
o HSBC adotou uma versão menqs complexa do IFRS, com
os capítulos considerados menos complexos da contabilidade.
Em junho daquele ano, todos os outros foram agregados aos
demonstrativos, inclusive os que se referem à mensuração
e reconhecimento de instrumentos financeiros.
Uso do modelo ainda desperta dúvidas
O processo de adaptação do modelo contábil
brasileiro ao IFRS ainda levanta muitas dúvidas nos
principais executivos das empresas. Essa é a principal
conclusão a que chegou um levantamento da empresa de
auditoria KPMG , realizada há cerca de um mês.
Um dos ítens do levantamento - questionava de que forma
a adoção do novo sistema impactará as
empresas - é um exemplo disso. Para 36% desses executivos,
o lucro das companhias em que atuam aumentará. Apenas
7% acha que os resultados sofrerão impactos negativos.
Uma das curiosidades é que 48% dos executivos disse
não saber a que tipo de impactos podem ocorrer. "O
que importa, em minha visão, é que aspectos
como maior comparabilidade entre as empresas e mais transparência
para acionistas e investidores, foram citados como de positivos
pelas empresas", explica um dos sócios de auditoria
da KPMG, Ramon Jubels.
De acordo com o especialista, possíveis efeitos fiscais
e tributários da lei também despertam dúvidas
dos empresários. "Uma interpretação
que temos é de que a aplicação propriamente
dita da conversão contábil não trará
impactos. Mas é bastante possível que eles surjam
de operações de fusão e aquisição
das empresas", exemplifica Jubels.
Segundo a pesquisa da KPMG, há clareza no que diz respeito
às áreas que serão mais afetadas para
adequar-se às novas regras. Em primeiro lugar - com
68% das preocupações - ficou TI (tecnologia
da informação). Para o levantamento, 62% dos
entrevistados se preocupam também com a capacitação
de pessoas. "O treinamento de pessoas e o desenvolvimento
de sistemas adequados às novas demandas são
nossas maiores preocupações", diz, Álvaro
Azevedo, do HSBC.
Companhias fechadas
Além das companhias abertas, cujas ações
são negociadas na Bovespa ou em bolsas internacionais,
a lei 11.638 também inclui aquelas consideradas de
grande porte. São qualificadas dessa maneira companhias
cujos ativos totais superem R$ 240 milhões ou cuja
receita bruta anual ultrapasse R$ 300 milhões. Essa
empresa também têm até o final de 2010
para divulgar balanços consolidados baseados na nova
lei. No entanto, as principais empresas de auditoria não
perceberam movimentos dessas instituições para
adequar-se à lei. "A 11.638 contempla organizações
tão distintas como multinacionais com atuação
no País, cooperativas sem fins lucrativos e organizações
não governamentais. Algumas delas administram bilhões
e têm grande impacto na economia local. Todo esse conjunto
de instituições terá de correr atrás
da conversão em algum momento", explica o presidente
da BDO Trevisan, Antoninho Marmo Trevisan.
A lei obriga as empresas de grande porte a contratar o serviço
de auditoria independente. Elas, no entanto, não precisarão
publicar seus balanços, como acontece com as empresas
de capital aberto. "As empresas fechadas não deverão
modificar essa tendência. Seus públicos são
outros e há a questão de abrir dados para a
concorrência", exemplifica o diretor-técnico
do escritório Tozzini Freire , Renato Berger. Entretanto,
como muitas dessas empresas podem acessar o mercado de capitais
futuramente, algumas podem optar em publicar os balanços.
"Essa publicidade pode acontecer de diversas formas.
Não há dúvidas de que um documento publicado
em jornal de grande circulação do País
tem um alcance muito maior do que na página da empresa
na internet", avalia o sócio de auditoria da Deloitte,
Edimar Facco.
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