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Novas regras prometem
emoções fortes
VALOR ECONÔMICO - 13/06/2008
Por Nelson Niero, de São Paulo
Com a discrição que lhes é
peculiar, os contadores prepararam uma revolução.
Ela já está em curso desde o primeiro dia do
ano, quando entrou em vigor a Lei 11.638, que reforma a parte
contábil da Lei das Sociedades por Ações,
de 1976.
Não se engane, não é mais um calhamaço
de regras esotéricas. É um coquetel molotov
que promete "reinventar a profissão", nas
palavras de Nelson Carvalho, o representante brasileiro no
Conselho de Normas Internacionais de Contabilidade (Iasb,
na sigla em inglês), a entidade com sede em Londres
responsável pela nova ordem mundial das demonstrações
financeiras.
A invocação "contadores do mundo, uni-vos"
pode ser ouvida pelos quatro cantos do planeta e agora também
em qualquer seminário perto de você. Sim, são
vários, especialmente das firmas de auditoria e consultoria
que se preparam para um ano de muito trabalho e honorários.
Só a BDO Trevisan, sociedade do empresário Antoninho
Marmo Trevisan com a multinacional BDO, planeja nada menos
que 100 neste ano. Na segunda-feira, a empresa lança
seu "guia de bolso" para a lei, intitulado "Uma
revolução na contabilidade das empresas".
Dois dias depois, a Trevisan Escola de Negócios promove
um curso intensivo de contabilidade internacional com foco
em IFRS - sigla em inglês para as normas internacionais
de informações financeiras.
Imagine que as suas concorrentes, principalmente as chamadas
"quatro grandes" - Deloitte, Ernst & Young,
KPMG e PwC - também estejam cheias de planos para o
futuro e teremos o ano recorde para a locação
de auditórios.
Mas centenas de seminários não vão evitar
que o ano seja "uma bagunça", como previu
um acadêmico durante um dos muitos encontros realizados
nos últimos meses para discutir o assunto. Ele não
se referia só às mudanças visíveis,
como a troca de um conjunto de contas por outro e pontos polêmicos
como marcação de ativos pelo valor mercado.
A confusão se dará por uma mudança radical
na postura de quem faz os balanços. Essência
sobre a forma, este é o mantra entoado pelos gurus
da nova religião contábil.
Não se trata de uma tarefa simples mudar a maneira
como pensam auditores, contadores e acadêmicos para
que adotem o "subjetivismo responsável",
termo criado por Sérgio de Iudícibus, professor
aposentado pela Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
O tempo do "check list" acabou, dizem os arautos
da revolução que vem sendo tramada desde o começo
da década de 90 - e, depois de várias várias
concessões, foi aprovada no fim de 2007. Não
basta cumprir as regras, "consultar os papeizinhos com
fórmulas no bolso", segundo Nelson Carvalho, que,
além de membro do Iasb, também é professor
da USP. Mais poder e responsabilidade para os contadores,
quase uma redenção de uma categoria sempre relegada
ao segundo plano nas decisões empresariais.
Mas a "harmonização" com os países
que usam as regras internacionais (entre os quais, diga-se,
não estão os Estados Unidos, o principal mercado
de capitais do mundo) não é exatamente harmônica
entre os profissionais brasileiros. Olívio Konder,
professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz
que a nova lei desrespeita os princípios fundamentais
da contabilidade e defende uma nova reforma contábil.
Antônio Lopes de Sá, mentor de uma corrente chamada
"neopatrimonialismo" e conhecido por sua prolífera
produção literária, tem vários
artigos na sua página na internet desancando a harmonização
das regras contábeis.
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