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Hora de reajustar as estratégias
GVINICIUS MEDEIROS
Se não foi a "marolinha" que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
apregoou no início, a crise financeira mundial aos poucos mostra-se
menos avassaladora do que se anunciava. Embora alguns setores ainda
sofram impactos pesados, a economia brasileira já dá os primeiros
sinais de estabilização, resultado da política de incentivos fiscais
criada pelo governo federal, além da expansão de concessão de crédito,
entre outras medidas, que estimularam o consumo.
Mesmo entre os mercados que aparentemente deixaram os efeitos da crise
para trás, a comparação com 2008 ainda é injusta. "A economia está mais
estabilizada do que há alguns meses, com indicadores mais seguros, como
a produção industrial e o nível de desemprego, que se mantêm estáveis,
mas a recuperação não é uniforme. Há setores que ainda estão bastante
afetados, como o de bens duráveis, siderurgia e commodities. A
expectativa geral é por um crescimento mais efetivo a partir do segundo
semestre", diz Kenzo Otsuka, consultor da Trevisan Consultoria e Outsourcing.
Para empresários, a recuperação econômica proporciona mudanças no
planejamento estratégico: se, antes, expansão e novos investimentos
pareciam impossíveis, com o cenário atual se tornaram opções viáveis. A
gradativa melhora da economia traz otimismo e estimula empresários a
reverem o planejamento estratégico para este ano, produzido em meio ao
auge da crise, no fim do ano passado.
"A recuperação ainda é gradual. O governo federal tomou as medidas
certas, na hora correta, estimulando o consumo e a economia e, acima de
tudo, um crescimento sustentado. Há mais otimismo no mercado. Antes uma
heresia, novos investimentos tornaram-se possíveis", diz Reynaldo Saad,
sócio da Deloitte e especialista na área de varejo.
Embora reconheça a melhora do mercado, Otsuka acredita que a crise
também deixou lições das quais as empresas não podem esquecer. "O
cenário econômico tende para uma recuperação. Os projetos anteriormente
arquivados poderão sair da gaveta, mas é preciso manter uma política de
gestão conservadora. Os ajustes feitos para combater a crise, como
otimização de custos e processos, revisão do portfólio de produtos e
coerente gestão de caixa, devem ser mantidos", acredita.
O consultor Marcelo Andrade, da Pragmática Consultoria , endossa as palavras de Otsuka. "Eficiência em gestão é algo que as
empresas devem sempre buscar. Hoje, é possível crescer, mas somente a
partir de um bom planejamento. Ações como pesquisas de mercado,
medições sobre a realidade do negócio e uma correta estruturação são
muito importantes", avalia.
Indústria especializada em refino e venda de fubá e farinha de
mandioca, a Granfino sentiu os impactos da crise em novembro, explica o
gerente de Marketing, Felipe Lantimant. "Normalmente um período
positivo, novembro foi atípico, com queda nas vendas. Fizemos uma série
de mudanças internas, que envolveram a área de vendas, distribuição e
marketing, entre outras. Enxugamos custos e baseamos o planejamento de
2009 em cima disso. Nossas medidas deram efeito imediato. Dezembro foi
o melhor mês na história da empresa e compensou as perdas anteriores",
revela.
As medidas feitas pela Granfino continuaram a dar resultados este ano:
entre janeiro a abril, a companhia registrou um crescimento de 13% em
tonelagem e de 10% no faturamento sobre o mesmo período de 2008. O
quadrimestre, novamente histórico, fez a empresa projetar uma expansão
de 10% em receita este ano, além de outros 10% em 2010. "Agora, podemos
retomar projetos arquivados, como lançamento de produtos e uma política
publicitária mais agressiva. Entendemos que a crise já passou", afirma
Lantimant.
A rede de franquias Spoleto, especializada em culinária italiana,
também soube se planejar para enfrentar a crise. Não sem antes
enfrentar turbulências, como explica a gerente de Marketing, Jacqueline
Lopes. "Janeiro e fevereiro foram difíceis. Enxugamos custos e cortamos
pessoal, pois a maior parte das lojas está em shoppings, que viram o
movimento diminuir por conta da crise. Em consequência, engavetamos
projetos, mas a recuperação está acontecendo", diz.
Entre as medidas realizadas, o Spoleto criou novos e mais caros pratos,
agregando valor a linha de produtos. "Em paralelo, estamos focamos na
expansão da rede. Neste ano, a venda de franquias cresceu 30% na
comparação com 2008. Investidores procuram um investimento seguro e
nossa marca é conhecida no mercado. Além disso, o acesso ao crédito
aumentou. As medidas deram resultado e a receita já se estabilizou, o
que nos permitiu fazer uma campanha publicitária mais agressiva, com
mobiliário urbano e mídia televisiva. Os resultados estão aparecendo",
revela.
automotiva. Um dos setores mais afetados pela crise, a indústria
automobilística começou a se recuperar a partir da redução do Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI) para compra de automóveis novos,
em dezembro de 2008 - a medida, que venceria em março, foi prorrogada
até 30 de junho. Segundo Francisco Magalhães, diretor da Premium Rio,
concessionário oficial das marcas Audi, Land Rover e Kia no Rio, o
papel do governo foi fundamental para a recuperação.
"Não posso negar que houve um impacto no final do ano passado, mas a
resposta do governo foi rápida, o que refletiu rapidamente nas vendas.
A medida beneficiou veículos com motores até 2.0, o que enquadrou a
maioria dos veículos que comercializamos, à exceção da Land Rover. Em
consequência, a Audi Rio obteve um crescimento de 28% neste primeiro
trimestre, na comparação com o mesmo período de 2008. Também atribuo o
bom desempenho da montadora alemã aos novos modelos que trouxemos ao
mercado", diz.
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