| Imprensa - Notícias
Comércio e prosa, pelo guarda-livros Fernando
Os ingleses comem ovos quentes numa meia taça (egg cups), fato que principia uma eterna lição de comércio. O guarda-livros Fernando contou essa e muitas outras histórias. Também poetava aquele homem, Fernando Pessoa
Célia Demarchi - 23/4/2009 - 19h58
Talvez o momento atual seja o melhor da profissão de contabilista, em muito tempo, para lembrar do poeta Fernando Pessoa, que, além de um dos maiores poetas portugueses, foi também – quem diria? – guarda-livros. Como diz Antoninho Marmo Trevisan , presidente da Trevisan Consultoria e Gestão,“está havendo um renascimento”.
Se ainda não chegam a promover saraus de música e literatura, como faziam até a década de 1950 em São Paulo, de acordo com o empresário, os contabilistas estão cada vez mais ecléticos. Basta passar os olhos sobre o programa do 7º Encontro da Mulher Contabilista, que será em maio, em Vitória (ES), para se constatar que os tempos mudaram: além de assuntos técnicos, o evento discutirá temas como cidadania, responsabilidade social, ética. “Tudo isso tem a ver com o fim da inflação”, diz Trevisan , sugerindo que agora os contabilistas têm um pouco mais de tempo para se dedicar de forma abrangente à gestão dos negócios.
Nesse novo cenário, fica mais fácil entender a relação entre a contabilidade e a literatura, como demonstra Trevisan , que batizou o auditório da consultoria com o nome de Fernando Pessoa: “O contabilista trabalha com palavras e números em prol da precisão. Interpreta esses dados e os traduz para permitir que o maior número possível de pessoas possa compreendê-los”. Seria então a contabilidade algo próxima da poesia, já que expressa fatos de forma precisa e contundente.
Todavia, o poeta de fato trabalhou num escritório contábil, de seu cunhado, e dirigiu uma publicação especializada, a Revista do Comércio e Contabilidade. Mas, antes, ele estudou comércio em Durban, África do Sul, onde viveu quase toda a adolescência – o padrasto era cônsul de Portugal na cidade e também atuava no ramo de importação e exportação.
Esse período se reflete claramente em sua obra literária, principalmente nos poemas de inclinação pagã do heterônimo Alberto Caeiro (Durban foi uma espécie de capital asiática na África, e consta que chegou a ter mais habitantes hindus que brancos). Mas a experiência se traduziu ainda em uma outra obra surpreendente: Teoria e Prática do Comércio.
O livro aborda assuntos como legislações e monopólio e, num texto intitulado “A essência do comércio”, publicado também na Revista de Comércio e Contabilidade, em 1926, antecipa de modo formidável os caminhos do marketing moderno.
Já entre os vários heterônimos, o que mais parece ter se aproximado do ser social Fernando Pessoa foi Bernardo Soares, que assina o Livro do Desassossego. Tímido ajudante de guarda-livros em Lisboa, Soares era parte prosa, parte números e cálculos.
A essência do comércio - (trecho) FERNANDO PESSOA
“Aqui há anos, antes da Grande Guerra, corre os meios ingleses, como exemplo demonstrativo da insinuação comercial alemã, a notícia do caso curioso das “taças para ovos” (egg cups) que se vendiam na Índia”.
O inglês costuma comer “os ovos”, a que nós chamamos “quentes”, não em copos e partidos, mas em pequenas taças de louça, do feitio de meio ovo, e em que o ovo, portanto, entra até a metade (...). partem a extremidade livre do ovo, e comem–no assim, com uma colher de chá, depois de lhe ter deitado sal e pimenta. Na Índia, colônia britânica, assim se comiam, e naturalmente ainda se comem, os ovos “quentes”. Como é de supor, eram casas inglesas as que, por tradição aparentemente inquebrável, exportavam para a Índia as taças para este fim. Sucedeu, porém, que, alguns anos antes da Guerra, as firmas inglesas exportadoras deste artigo notaram que a procura dele na Índia decrescera quase até zero. Estranharam o fato, buscaram saber a causa, e não tardou que descobrissem que estavam sendo batidas por casas exportadoras alemãs, que vendiam idêntico artigo ao mesmo preço.
Se as casas alemãs houvessem entrado no mercado índio com o artigo a preços mais baixos, sem dúvida que os agentes dos exportadores ingleses teriam advertido estes sem demora. Mas, como o preço
era igual e a
qualidade igual
também, não era necessário
o aviso; nem houve receio quando se verificou que havia razão para mais que receio – isto é, quando se verificou que, nestas condições de duvidosa vantagem para um novo concorrente, o artigo alemão vencera por completo.
Feita a averiguação ansiosa da causa deste mistério, não tardou que se descobrisse. Os ovos das galinhas indianas eram – e naturalmente ainda são – ligeiramente maiores que os das galinhas da Europa, ou, pelo menos, das da Grã–Bretanha. Os fabricantes ingleses exportavam as taças de tipo único que produziam para o consumo doméstico. Estas taças, evidentemente, serviam de um modo imperfeito aos ovos das galinhas da Índia. Os alemães notaram isto, e fizeram taças ligeiramente maiores, próprias para receber estes ovos. Não tinham que alterar qualidade (podiam até baixá–la), nem que diminuir preço: tinham certa a vitória por o que em linguagem científica se chama adaptação ao meio. Tinham resolvido, na Índia e para si, o problema de comer o ovo de Colombo.
Esta história, em aparência tão simples, encerra um ensinamento que todo comerciante, que não o seja simplesmente por brincar às vendas, devia tomar a peito, compreender na sua essência. Um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama o seu “lucro”, pela prestação desse serviço. Ora toda a gente que serve deve, parece–nos, buscar agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve – mas estudá–lo sem preconceitos nem antecipações; partindo, não do princípio de que os outros pensam como nós, ou devem pensar como nós – porque em geral não pensam como nós –, mas do princípio de que, se queremos servir aos outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar como eles: o que temos que ver é como é que eles efetivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem.
VOLTAR |