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Nem o mar revolto apaga o brilho da contabilidade

 

A crise produz efeitos brandos nas empresas de contabilidade. O mais importante é que os contabilistas ganham a cada dia mais mercado e importância para as empresas. A demanda “está uma loucura”, afirma o presidente do Sescon-SP.
Célia Demarchi - 23/4/2009 - 20h21
A crise econômica não poupou escritórios, consultorias e auditorias contábeis, mas seus efeitos são brandos sobre os negócios do setor e nem de longe ofuscam o brilho de sua atual fase. Os contabilistas – 403 mil em todo o País, entre técnicos e contadores, mais de 25% estabelecidos no Estado de São Paulo – ganham a cada dia mais mercado e importância para as empresas, na mesma proporção do avanço da tecnologia, que vem transferindo para os computadores as tarefas mecânicas. Finalmente, eles começam a ter tempo para pensar em gestão. Numa época em que a palavra agrega uma outra, de sentido muito abrangente: sustentabilidade.

A demanda pelos serviços “está uma loucura”, segundo José Maria Chapina Alcazar, presidente do Sindicato das Empresas Contábeis e de Assessor amento no Estado de São Paulo (Sescon-SP). Se alguns escritórios tiveram de renegociar honorários e arcar com certa inadimplência nos últimos meses, também colheram na crise alguns lucros: “Cresceu o volume de horas contratadas de consultoria porque os clientes estão realizando mais reuniões de planejamento estratégico”.

No momento em que as empresas se mobilizam para lidar com temas ainda novos em suas searas, como meio ambiente, cidadania, ética, governança, os contabilistas também os abraçam, já que se tornaram parte importante no processo de gestão dos negócios. Ao mesmo tempo, esses assuntos impulsionam o terceiro setor e abrem espaço para serviços ainda mais segmentados: já existe escritório especializado em atender exclusivamente entidades sociais.

Nesse mesmo contexto, as mulheres, que já têm fatia expressiva do mercado de trabalho (são 37% dos contabilistas do País), avançaram – em especial nos últimos dez anos – sobre os cargos políticos das entidades e órgãos de classe quase tão expressivamente quanto nos escritórios e departamentos de contabilidade.

“É um renascimento”, diz Antoninho Marmo Trevisan , presidente da Trevisan Consultoria e Gestão, cuja empresa tem um auditório batizado com o nome do poeta português Fernando Pessoa, que também foi contador, deixou uma obra surpreendente sobre comércio e tinha um heterônimo, Bernardo Soares, que exercia a profissão de guarda-livros em Lisboa.

Os contabilistas, contudo, ainda não voltaram a promover saraus de música e literatura como até os anos 1950, nos seus redutos no centro paulistano. Mas a arte os acompanha na profissão, por estranho que pareça: os contabilistas expressam resultados pelos números, com a precisão dos poetas. E, desde os primórdios, caminham ao lado dos artistas, já que “o pai da contabilidade”, o monge e matemático Luca Bartolomeo de Pacioli, teve um de seus livros ilustrados por seu contemporâneo e aluno, Leonardo da Vinci (De Divina Proportioni). “Trata-se do princípio da proporcionalidade: onde há um débito, há um crédito. As igualdades estão presentes na definição de espaços da obra”, comenta Trevisan .

O provável, no entanto, é que os contabilistas demorem um pouco a retornar aos saraus. Como o deus grego de quem emprestaram seu símbolo, o Caduceu, que transforma em ouro tudo o que toca, andam cada vez mais ocupados. Se nos últimos anos precisaram se preocupar como nunca com atualização, agora essa necessidade é ainda mais premente. Com a edição, dezembro de 2007, da Lei 11.638, que atualiza as normas societárias para promover a convergência da linguagem contábil com os novos padrões internacionais, um cenário esperado para daqui a dez anos se materializou de repente, provocando uma revolução no mercado, principalmente de auditoria.

Esta é a carreira que, por esse motivo inclusive, está em destaque. Mas as empresas têm de preparar os profissionais porque, na maioria dos casos, as escolas, que em número são muitas (mais de 40 de nível superior apenas na cidade de São Paulo), deixam a desejar na formação dos técnicos e bacharéis. “As faculdades podem ter currículo pleno bem elaborado, com arcabouço teórico. Mas contabilidade é como medicina, demanda especialização”, diz Osvaldo Michael Stader, coordenador fiscal do Conselho Regional de Contabilidade (CRC-SP) e professor do curso de Ciências Contábeis das Faculdades Oswaldo Cruz. Ele defende o ensino “artesanal”, para pequenas turmas, e afirma que em salas superlotadas, com mais de 70 alunos, se faz “palestra”, não exatamente se ministra aula.


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